Um arquipélago em casa

Você já se deparou, ao ficar sozinho, que conversar numa sala de bate-papo na internet pode fazer o tempo passar mais rápido? Talvez você nem tenha sentido que estava mesmo sozinho, não é?

Com o advento da internet, as formas de comunicação e interação sofreram uma importante revolução. As antigas cartas de papel e as ligações telefônicas, apesar de ainda existirem, perderam espaço para as plataformas virtuais, principalmente as redes sociais.

Há até aqueles que preferem ficar em casa, gastando horas de seu dia para trocar mensagens na internet do que investir numa conversa a dois pessoalmente ou em grupos de amigos.

Para estudiosos como a socióloga e professora do Massachusetts Institute of Technology (MIT), Sherry Turkle, as pessoas encontraram um jeito de camuflar sua solidão. “Os relacionamentos humanos são ricos, caóticos e exigem muito de nós. Com a tecnologia, adquirimos o hábito de organizá-los melhor. Além de toda a sensação de companhias sem as exigências do relacionamento”.

Estar em interação com outras pessoas quando conectados nos redime do virtual. Entretanto, a partir da massificação dos smartphones e outros aparelhos móveis, estamos on-line o tempo todo, então se faz jus afirmar que nunca estamos sozinhos?

É muito comum encontramos pessoas mergulhadas em seus aparelhos móveis. Dispositivos que estão sempre conosco nos induzem a ideia de que sempre seremos ouvidos, que podemos concentrar nossa atenção no que bem entender e que nunca ficaremos sozinhos.

Os jovens, adeptos as novidades, já aprenderam a lição. Eles administram milhões de amigos, cuidadosamente mantidos a distância, mas no exímio poder das telas de seus smartphones, que podem editar, deletar, programar e restringir.

Até hoje este é o momento auge da discussão social. Nas famílias, os pais se preocupam até que ponto os filhos podem ficar on-line o tempo todo, com seus celulares pessoais. Será que tanta conectividade não os afasta do convívio com a família e com os amigos? Não os distanciam das atividades físicas e motoras, tão essenciais ao desenvolvimento do corpo e do intelecto humano?

O debate é necessário, mas não só voltado ao comportamento dos filhos. Até que ponto nós não vivemos em um arquipélago conectado – ou seja, cada um de nós, em nossos lares, não somos uma ilha de informação. Por exemplo, a família está toda junta na sala de jantar, mas cada um concentrado em seu próprio celular.

Neurocientistas do mundo todo afirmam que a internet somada aos dispositivos de tecnologia de ponta nos fornece estímulos prazerosos – dos quais podemos nos tornar dependentes. Já existe até nome: Fomo é o sentimento de ansiedade de muitos internautas, que querem acompanhar todas as informações que estão na internet.

Uma pesquisa do órgão regulador de telecomunicações do Reino Unido, a Ofcom, sugere que 15% lêem menos livros por causa do tempo que gastam conectados. A maioria dos jovens – 60% – se diz altamente viciada, quase o dobro dos adultos (37%). Por razões biológicas, os adolescentes têm menos controle sobre seus impulsos e, portanto mais dificuldade para dosar o uso do smartphone.

O americano Nicholas Carr abordou o assunto no livro “The shallows – What the internet is doing to our brain” – Os superficiais – o que a internet está fazendo com nossos cérebros. Para ele, a exposição constante às mídias digitais está mudando para pior a forma como pensamos. “Estamos menos inteligentes, mais superficiais e imensamente distraídos.”

Carr pode ser considerado um apocalíptico. Acima de qualquer questionamento, é inegável que a internet trouxe e traz benefícios imensuráveis à sociedade. A inclusão digital permite um exercício democrático de liberdade de expressão, nunca antes imaginado. Estar on-line rompe fronteiras físicas, permitindo a socialização do conhecimento e da informação. Entretanto, a massificação da internet não pode ameaçar o relacionamento de carne e osso.

Precisamos aprender a usar nossos smartphones e demais aparelhos. Aproveitar seus recursos para tornar o dia a dia mais prático e aumentar o número de amigos, mas sem fragilizar o nosso convívio social real. Assumir o controle e reter a compulsão já é um grande passo para não estar mais sozinho na rede.

 

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1 comentário

    • Beatriz Barreto Tanezini
    • 13/07/2014
    • Responder

    Parabéns pelo texto! Abraço.

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